Ele voltou!

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Ele voltou. Voltou a si e chorou. Chorou e riu. Uma mistura de gargalhadas com um pranto aliviado. Lembrou que tudo não passou de um sonho.

Me fez confissões dessa vida e do outro mundo. Os segredos dessa vida vou guardar para mim, mas o que aconteceu no outro mundo irei dividir.

Ele contou que almoçou num restaurante de motoqueiros e pediu Coca-Cola. Tomou café numa xícara que estava rachada em Itabirito, na casa de uma senhora e seu marido. O café o queimou a boca e a rachadura da xícara o fez entornar tudo em sua roupa. Fez um passeio de ônibus no qual o motorista era um roda dura, e esse mesmo ônibus passou por um túnel escuro e frio e nesse momento seu corpo levou várias pancadas. Viu seu pai, mas apesar dos inúmeros chamados ele não se aproximou e permaneceu o observando de longe. Foi dar um passeio em Santa Bárbara. Construiu uma casa. Conheceu a cozinha do cti. Foi atentado por monstros que o prenderam e não o deixavam sair, e até caveiras ele viu.

Contou que esse mundo era mesmo em outra dimensão e que tudo se passava num tempo e velocidade diferentes. Expliquei sobre o efeito da morfina e da anestesia.

Rimos até chorar e choramos até aliviar. Chorando ele chegou a conclusão que a vida não valia nada, olhou para si de fraldas e caiu na gargalhada. Foi mágico e trágico. Meu vô e eu.

O ambiente ecoante.

Nada mais mágico que a atmosfera de uma música em um ambiente ecoante. É uma das primeiras lembranças que tenho do meu contato com a música, eu devia ter uns cinco anos. A alegria dos meus dias era o radinho de pilha do vigia da garagem de ônibus. O som ecoava dentro daquele galpão frio e eu adorava. A música saia dançando naquele vazio, batia nas paredes e flutuava. O galpão ficava ao lado da minha casa e quando o sol ficava bem alaranjado no final de tarde, o radinho era ligado. Cheguei a sonhar incontáveis vezes com aquilo, com aquela atmosfera, o som ecoando e entrando nos meus ouvidos. Isso foi o que definiu meu gosto musical, sem dúvida. Tudo que ecoava me encantava.

A cena.

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Lendo a biografia do Joy Division me deu uma vontade de escrever sobre a cena.

Sim, essa cena, nossa, atual, daqui, Belo Horizonte. A cena existe, pode não ser tão romantizada quanto a cena punk ou pós punk europeia, mas ela existe e somos personagens dela nesse momento.

Vontade de escrever sobre as noitadas, as festas, os afters, as brigas, os affairs, as viagens, a Bahia, os shows, o Rio, o mato, a estrada, os amigos. Colocar no papel meu olhar e minhas lembranças de tudo que passou e que vivemos. As bandas, os festivais, as manifestações, o viaduto, o centro, a savassi, os encontros, o maletta, o baixo centro, o carnaval, o santê. A cena eletrônica, tilele, mpb, punk, rap, hard core, cult, os duelos, os blocos, os porres, os tombos, os beijos, os sexos, as gargalhadas, a amnésia e o que não tem como esquecer.

A cena existe e você faz parte dela, seja aqui ou em Londres, um dia a gente vai virar história e quem sabe ter o nome citado em qualquer biografia por ai, ou não.

Não!

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Não pode ser gorda,
Não pode ser velha,
Não pode ser louca,
Não pode ser vulgar,
Não pode ser suja,
Não pode ser borrada,
Não pode ser largada,
Não pode ser muita,
Não pode ser pouca,
Não pode ser rasa,
Não pode ser funda,
Não pode ser livre,
Não pode poder,
Não pode não ser,
Não pode ser.

Ovo na casquinha

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Fui levar o João na natação e me deparei com uma triste cena cotidiana atual da sociedade  brasileira mineira contagense camilo alvense: As mães ficam da arquibancada olhando com muito orgulho sua prole engolindo água de cloro com xixi, enquanto fazem comentários maldosos sobre outras mães e fofocam about a vida alheia. Triste. Poderia ser uma troca legal, um encontro divertido, mas elas cheiravam a cinismo e falsidade, e as crianças a mijo e cloro. Mas isso perdeu a importância quando chegou finalmente o fim da aula. Como era maravilhoso esse momento!  O momento em que você podia parar de nadar “crau” e fazer campeonato de quem mergulha mais fundo! (Eu era tão exibida nessa hora). Mas não, o campeonato não aconteceu. O momento mágico não surgiu. As mães mais que depressa tiraram as crianças da piscina, colocaram o roupão e “tchau querida”! Tá doido? Como assim? Como não poderiam respeitar o tempo livre na piscina? Espera ai ou! É um dos momentos mais legais da semana junto com o recreio e a educação física! Achei cruel, cru-el, cruel! Como eu não queria isso no meu karma, deixei o João lá, mergulhando e me mostrando como ele nadava bem fundo até enrugar o suficiente. Quando ele finalmente se cansou nós viemos embora.
Chegando em casa, fui fazer um ovo na casquinha para mim, e perguntei se o João queria – “Ovo o que?” Pasma que ele nunca tinha passado pela deliciosa experiência de comer um ovo na casquinha!!! Ele ficou encantado com a idéia, e até comentou que um dos seus dinossauros preferidos comia ovos. Perguntou se era cru, e eu (de sacanagem) disse que sim, ele respondeu que adorava ovo cru e que iam achar que éramos japoneses por estarmos comendo aquilo. Hahaha. João se sentou na mesa de jantar da vovó e esperou ansioso. Expliquei como comia o dito cujo ao mesmo tempo que fazia um buraquinho com a colher no topo do ovo . Ele deve ter demorado uns trinta minutos. Achou incrível comer raspando a casca e observar, tocar e saborear aquela textura toda. Eu poderia ter sido impaciente e o apressado, mas não tinha porque e nem tive coragem. Hoje João foi o descobridor do ovo com casquinha e o campeão de mergulho mais fundo. Sem pressa, aproveitando todas as experiências. Fico feliz de não tê-lo apressado, uma coisa que o João tem é tempo, e muito. Todas as crianças deveriam ter, né?

Adélia.

Eu nasci velha – tanto que vim ao mundo com o nome de Adélia.

Aos 5 frequentava os bailes do Rotary Club.

Aos 6 era uma pé de valsa no bolero.

Aos 7 passava os feriados em Araxá e Caxambu.

Aos 8 vestia veludo bordô e mantinha os cabelos curtos.

Aos 9 não perdia um chá colonial.

Hoje aos 27 me esqueço onde coloquei o dentifrício.

Não trocaria infância nenhuma pela minha velhice precoce – e tenho dito!

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Nick Cave e o creeper.

Ai saí de casa com meu novo par de creeper me achando hype e linda, chego no Belas e meu amigo elogia meus novos sapatos ortopédicos. Uhum. Por falar no creeper, jesus, esse bicho é muito pesado! Subi a Rua da Bahia bufando com a sensação que meus tênis eram feitos de cimento. Haja panturrilha.

Havia um senhor passando mal nas mesas lá de fora, tiramos uma selfie tentando não mostra-lo atrás da gente – ética, né.

Algumas pessoas saiam de uma sessão, todas muito bem agasalhadas e na casa dos 50/60, perguntei qual filme era e se era bom, “se você gostar de cinema francês vai adorar esse!”. Pena que quando falaram o nome do filme eu só fingi entender.

Na sala de cinema haviam cinco pessoas e nós dois. Um senhor de meia idade e por sinal muito empolgado, três mocinhas e um outro senhor porém dessa vez, apático. O filme começa, e só de ver o Nick Cave na tela grande eu já acho genial. Ele está velho, óbvio, mas continua o mesmo – com um sorriso tímido, os olhos azuis e os cabelos pretos. Será que ele já pinta?

O filme é uma mistura de documentário e ficção. Há participações de Blixa, Kylie Minogue e um outro que não sei quem é (e nem vou procurar no google para fingir de sabida), da banda e do psicanalista, que é o Darian Leader, aquele que adora falar de Lacan. Os diálogos são sempre voltados as experiências que Nick teve no passado e suas lembranças daquilo. As vezes me vinha o pensamento de quanto aquilo tudo era egocêntrico, mas ai eu caia na real – se eu fosse Nick Cave faria aquilo mil vezes.

É uma sensação gostosa achar que está mais perto do processo íntimo e criativo de um ídolo. Ele fala bastante sobre como a música o liberta e o quanto as apresentações são importantes na vida dele, e diz que não se imagina não fazendo aquilo pelo resto da vida – que no palco ele pode ser a projeção do que ele sempre quis ser, um personagem, ou qualquer coisa que quisesse. Nick diz que passa os dias escrevendo e inventando um mundo só dele, e que quando ele sai para o mundo real fica meio desconcertado (eu concordo com você, Nick). E que seu maior medo é perder a memória, pois a memória é a base de tudo que você é, inclusive da sua alma (também sofro desse medo). Ponto para a Susie e para os filhos. A Susie é maravilhosa e eu nunca tinha me dado conta disso! Aliás, o Nick faz uma declaração de amor para ela de uma forma que eu nunca havia visto nada parecido antes. Ele basicamente diz que ela foi a junção de todas as referências femininas que ele sempre cultuou (enquanto passavam imagens de todas essas mulheres que ele foi citando). Foi genial.

 É um bom filme, mas assim como quase tudo que ele faz, acho que durou um pouco além. Mas não muito, eu cortaria algumas cenas finais, inclusive a última – odeio ver o dia nascer.

O ponto alto para mim foi a cena em que ele e Blixa tem uma conversa e o concerto final. Bravo, bravo!

Reflecssão: O que tirei de importante dessa experiência foi que jamais podemos deixar a preguiça nos atrapalhar, a idéia pode até ser ruim, mas é melhor realiza-la do que guarda-la na gaveta – foi o Nick que disse.

Ah! Senti falta da PJ Harvey, ela não apareceu.

Nota 9 porque sou fã demais do Sr. Cave!

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